Ribatejo

VILA DE ALPIARÇA

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:: Até ao Séc. XX ::.
Alpiarça, durante a Idade Média, não foi uma povoação com grande importância, pois não se conhecem grandes acontecimentos datados deste período. Apenas chegaram até nós um conjunto de acontecimentos que nos ajudam a reconhecer a realidade da época.

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Por : Nuno Prates*

:: ALPIARÇA DA IDADE MÉDIA À ÉPOCA CONTEMPORÂNEA

Em 1295, surge a primeira referência escrita, que se conhece, mencionando o nome desta povoação. Nas Inquirições de D. Dinis aparece o termo Alpearça, mas pouco mais se sabe. Mais tarde, em 1311, verifica-se mais uma vez uma referência a Alpiarça, num arrendamento a Martim Anes, boieiro, este menciona a existência de uma herdade além “dalpearça”.

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De 1338 é datada uma carta de coutada passada pela Chancelaria de D. Afonso IV, e destinada a Pedro Eanes, escrivão da dízima na Ribeira de Santarém. Da carta podemos retirar algumas informações como por exemplo a localização do dito Reguengo de Alpiarça, situado “a par do moinho de vento, no limite da vila de Santarém”. Na carta há informações sobre a propriedade e destaca-se o facto desta não dar lucro, visto haver muito gado que a invadia e também porque os cavaleiros da vila de Santarém entravam nesta propriedade, fazendo várias pilhagens.

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No século XIV já Alpiarça (Alpearça) existia como povoação. O povoamento destas zonas terá começado logo a seguir à Reconquista.

Outra das referências que se conhecem sobre Alpiarça diz respeito ao seu rio: o rio Alpiarça ou Vala Real. Este era no reinado de D. João I coutada real. Era muito comum os monarcas usufruírem de terrenos próprios para pescarem e caçarem, eram as coutadas reais, aqui só unicamente o rei poderia caçar ou pescar, outros para o fazerem teriam que ter uma autorização especial. Em relação ao rio Alpiarça, há notícia que em 1436, o povo do concelho de Santarém faz uma petição ao rei, para que naquele rio se pudesse pescar com covões, pois pescar com cana não era rentável. O rei D. Duarte cede ao pedido e autoriza a utilização dos covões em determinadas zonas do rio.
Passados três anos o concelho de Santarém, nas Cortes de 1439, volta a manifestar-se contra a coutada real do rio Alpiarça, alegando que os rios são livres e que todos deveriam ter direito de pescar, o povo manifestava-se contra alguns poderosos que o proibiam de pescar no tempo do sável.

Passados alguns anos, o regente D. Pedro declara livre a pesca no rio Tejo (1442), no entanto o rio Alpiarça continua a ser coutada real em algumas zonas. O rio Alpiarça aparece-nos sempre associado à abundância de peixe, talvez fosse esta a razão pela qual ele era considerado coutada real. O padre Luiz Cardoso, no Dicionário Geográfico (1747) referencia a fertilidade das terras junto às margens do rio Alpiarça, assim como a abundância de peixe, nomeadamente fataças e barbos.
O rio Alpiarça é coutada real desde o reinado de D. João I até ao século XVIII. Tal como o rio também a charneca de Alpiarça foi coutada real de caça, no vale da Atela caçavam-se raposas, perdizes e javalis.
Outras das referências a Alpiarça aparece-nos na obra de Gil Vicente “Nau dos Amores” (1527), aqui é referido que a povoação pertencia ao mestre da Ordem Militar de Avis, recebendo rendas de Alpiarça.
Na contagem da população mandada fazer por D. João III, entre 1527 e 1532 (Numeramento Joanino), aparece-nos a primeira referência à população existente em Alpiarça:

– Moradores que vivem desde a casa de Gonçalo Correa até à Lagoalva 28 vizinhos.

– A Tapada da Lagoalva 15 vizinhos.

– Aldea da Ponte d’Alpiarça 36.

Através do numeramento podemos constatar que era povoada a aldeia da ponte de Alpiarça (36 fogos), mas também os arredores, como por exemplo a Quinta da Lagoalva.
Durante a Época Moderna Alpiarça continua a pertencer ao arcediagado e comarca de Santarém. No entanto já é freguesia, pois, segundo o padre Luíz Cardoso, existe a informação que em 1747, compreendia dentro de si e em toda a freguesia o número de 300 vizinhos.
A igreja de Alpiarça pertencia à Colegiada de Santa Maria de Alcáçova, o pároco era cura e recebia de côngrua um moio (medida equivalente a sessenta alqueires) de cevada, um de trigo, uma pipa de vinho e cinco mil e seiscentos em dinheiro.
No século XVIII, Alpiarça cumpria os deveres e gozava dos direitos estabelecidos no foral de Santarém, por pertencer ao termo de Santarém.
Com o terramoto de 1755, Alpiarça não sofreu nada, pois não houve destruição de nenhuma casa. O centro do aglomerado populacional localizava-se na zona da actual praça velha, ficando a igreja afastada do centro, esta situava-se onde hoje existe o Jardim Municipal.
Ao longo do século XVIII, a agricultura de Alpiarça vai sofrer com um decreto do Marquês de Pombal, publicado em 1756, decretando o arranque das vinhas nos campos de Alpiarça. Esta cultura vai ser substituída pelos cereais.
Durante o século XVIII / XIX, assiste-se a grandes cheias, que muito vêm dificultar a agricultura da região. Em Alpiarça como a principal cultura eram os cereais, existem grandes dificuldades para os lavradores. A rainha D. Maria I vai em 1789, atender ao pedido dos lavradores de Alpiarça, autorizando de novo a plantação da vinha.
Durante o reinado de D. Maria I, constata-se um especial interesse pela agricultura, não só no campo prático mas também no campo científico. É nesta época que se realizam grandes obras no Ribatejo, como por exemplo a construção e arranjo de tapumes, tapadas e valados. Por volta dos anos 70 de 800 são construídos uma tapada em Almeirim e outra em Alpiarça.
Ao longo do século XVIII / XIX, a cultura da vinha continua a crescer e vem pôr fim aos prejuízos, que eram inúmeros para o cultivo de cereais.
Em 1836, a freguesia de Alpiarça deixa de pertencer ao concelho de Santarém, e passa para o concelho de Almeirim.
Aquando das invasões franceses, esteve aquartelado em Alpiarça, o alferes Bernardo Sá da Bandeira, futuro marquês Sá da Bandeira, pois Santarém estava ocupada pelas tropas de Massena.
Em 1824, passou por Alpiarça D. Miguel. Este esteve,  com suas irmãs, na Quinta da Goucharia, que era propriedade dos marqueses de Fronteira. Esta sua estada em Alpiarça ficou marcada pelas corridas de touros pela noite dentro.
A Quinta da Goucharia era, como já foi referido, propriedade do marquês de Fronteira, mas estava arrendada ao capitão-mor de Santarém, José Salinas de Benevides. Na quinta, o dia era passado na caça às lebres, enquanto a noite era passada quase sempre na Casa dos Sousas em Alpiarça, onde existia baile até muito tarde.
Nesta época o Dr Francisco Raymundo da Silveira dirigia algumas touradas em Alpiarça que atraíam inúmeros espectadores.
Através do recenseamento de eleitores do Concelho de Almeirim, conseguimos conhecer um pouco a freguesia de Alpiarça. Com efeito, em 1845 existiam na freguesia 51 proprietários, 6 fazendeiros, 3 lavadores, 1 boticário, 2 bacharéis, 1 cirurgião entre outros. Para fazer parte deste recenseamento era necessário saber ler e escrever, desconhecendo-se assim a profissão de muitos analfabetos. Pode-se, no entanto, observar a quantidade de profissões ligadas ao sector agrícola.
Quanto ao comércio, existia nesta data na freguesia 10 mercearias, 6 padarias, 6 tabernas, 2 boticas e 1 vendilhão.
No ano 1846, Alpiarça sob comando de Passos Manuel, foi uma das primeiras terras da Estremadura a participar na Revolta da Maria da Fonte.
Alpiarça, ao longo de todo o século XIX, foi local de grandes perturbações como: crimes, roubos, assassinatos, agressões à autoridade e desordens, talvez por este motivo a freguesia ficou conhecida como “Alpiarça… gente de má raça”.
As ideias republicanas estiveram sempre bem presentes em Alpiarça, que em 17 de Fevereiro de 1906, ascende à categoria de vila.
Na vila de Alpiarça, ocorreram nos últimos anos da Monarquia, grandes comícios de propaganda republicana.
Alpiarça atravessa uma grande crise no sector vinícola, pois havia uma grande produção e o vinho não tinha preços muito elevados (no século XVIII, a “filoxera” tinha acabado com as vinhas desta região, havendo de seguida uma grande replantação).
Por toda a parte existia um clima de grande instabilidade, que se fazia sentir na falta de trabalho, nos salários baixos, na fome e na pobreza. Perante este quadro a República aparecia como forma de solução de todos os problemas da população. Os Homens de Alpiarça queriam a República, sendo esta vila considerada como a mais republicana.

Em 1907, quando se fazem as jornadas republicanas pelo Ribatejo, é em Alpiarça que se dá uma das maiores recepções aos republicanos: João Chagas, Alexandre Braga, António José de Almeida, Bernardino Machado e João Menezes. A organização da recepção aos republicanos é feita por alguns alpiarcenses, salientando-se o Dr. Joaquim Romão. A comitiva passa pelas ruas da vila e a recepção é entusiasta.

Da varanda da casa de José Malhou, este e António José de Almeida falam ao povo. Depois deste comício há uma adesão à República de quase 100%.

A 9 de Fevereiro de 1908, o povo de Alpiarça aprova uma moção contra o governo de João Franco e, neste mesmo dia, recebe a população a visita de João Chagas. Quando chega a Alpiarça, acompanhado por José Relvas e Luíz Morotte, o povo espera-o à entrada da Quinta dos Patudos e aí mesmo exige um comício. Perante o discurso de Joaquim Romão, José Relvas e João Chagas, o povo aplaude com entusiasmo.
Aquando das eleições, o partido republicano obteve em Alpiarça 580 votos, enquanto que o partido monárquico ficou pelos 12 votos; este foi dos melhores resultados para o partido republicano. João Chagas ainda voltaria a Alpiarça antes de 5 de Outubro de 1910, para participar numa conferência, juntamente com José Relvas e Ricardo Durão.
À causa republicana, ficarão sempre ligados nomes de alguns homens desta vila como: José Relvas, Manuel Duarte, Ricardo Durão, João Maria da Costa, Jacinto Mártires Falcão, Joaquim Romão, José Malhou e António Guilherme Meira.
Alpiarça é elevada à categoria de concelho, pela Lei n.º 129, de 2 de Abril de 1914. Desta forma deixa de pertencer ao concelho de Almeirim, constituindo um concelho autónomo com uma única freguesia: Alpiarça.
A Comissão Executiva do concelho de Alpiarça era constituída por: Manuel Duarte (presidente), José Joaquim das Neves, Manuel da Silva Tendeiro, José Nunes Pedro e João Augusto dos Mártires Falcão.
O concelho de Alpiarça foi em tempos composto por outra freguesia: a freguesia de Vale de Cavalos; esta pertenceu ao concelho de Alpiarça entre 1919 e 1926. Depois desta data, o concelho de Alpiarça continuou a ser formado por uma única freguesia.

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Bibliografia :

PRATES, Nuno; REI, Seara

Alpiarça e a sua História, Trabalho apresentado na cadeira de História Moderna de Portugal,
Faculdade de Letras – Universidade de Coimbra, 1997. (Aguarda publicação).

* Licenciado em História, Variante de Arqueologia

:: Arqueologia ::.

Durante milhares de anos, o homem viveu com base numa economia de recolecção, caçando, pescando, e recolhendo o que a natureza lhe dava

:: PALEOLÍTICO ::

Por: Nuno Prates *  teste

O Paleolítico é o mais antigo e o maior período da história humana. É neste período, anterior à prática da agricultura, que vive um homem que está organizado socialmente em bandos, abrigando-se em grutas, cavernas ou acampamentos ao ar livre.

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Era nestes locais, que faziam toda a sua vida, dormiam, alimentavam-se e faziam os seus utensílios. É a partir desses utensílios que conhecemos o homem que viveu neste período.

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O Paleolítico divide-se em três períodos distintos: Paleolítico Inferior, Paleolítico Médio e Paleolítico Superior. É o Paleolítico Inferior e Médio que nos vai interessar, visto ser em Alpiarça que encontramos alguns dos sítios mais antigos de todo o país e que se podem datar na perfeição, uma vez que ainda possuem os seus estratos primários, ou seja, sem serem revolvidos.
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O Vale  do Forno onde se localizam as estações arqueológicas do Paleolítico Inferior e Médio.
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A região de Alpiarça, pela sua situação geográfica, (na margem esquerda do Tejo), apresenta vários níveis de ocupação humana desde o Paleolítico Inferior até à época romana.

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A presença humana nesta região data de há mais de 100.000 anos. Os terraços fluviais do Tejo junto à vila fazem dela uma zona importante no estudo do Quaternário. Na zona do Vale do Forno foram encontrados depósitos e indústrias líticas datáveis do Paleolítico Inferior. Foram também descobertos vestígios de flora que talvez sejam anteriores à glaciação de Wurm, em que o vale do Tejo era uma planície húmida e verdejante provavelmente algumas semelhanças ao clima actual. É de salientar os vestígios de Pinus e Nuphar Luteum.

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A zona do Vale do Forno já é conhecida desde os anos quarenta, mas só nos anos oitenta é que começaram os trabalhos arqueológicos na zona de Milharós.   A região de Alpiarça, pela sua situação geográfica, (na margem esquerda do Tejo), apresenta vários níveis de ocupação humana desde o Paleolítico Inferior até à época romana.

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A presença humana nesta região data de há mais de 100.000 anos. Os terraços fluviais do Tejo junto à vila fazem dela uma zona importante no estudo do Quaternário. Na zona do Vale do Forno foram encontrados depósitos e indústrias líticas datáveis do Paleolítico Inferior. Foram também descobertos vestígios de flora que talvez sejam anteriores à glaciação de Wurm, em que o vale do Tejo era uma planície húmida e verdejante provavelmente algumas semelhanças ao clima actual. É de salientar os vestígios de Pinus e Nuphar Luteum.

A zona do Vale do Forno já é conhecida desde os anos quarenta, mas só nos anos oitenta é que começaram os trabalhos arqueológicos na zona de Milharós.
Na estação do Vale do Forno estão representadas a indústria “clacto-abbevilense”, atribuída ao Acheulense Antigo, com bifaces pouco evoluídos e machados primitivos. Os materiais associados ao Acheulense Médio estão representados na camada 4, 5 e 6, pertencentes ao período interglaciar Mindel-Riss. Existem ainda utensílios considerados Micoquenses, atribuídos ao período final do Acheulense. Deste período há a destacar a presença de bifaces tipologicamente muito evoluídos, machados primitivos, mas tecnicamente bem executados. Destacam-se ainda a presença de utensílios sobre lasca (idênticos aos do Paleolítico Superior).

Os locais arqueológicos de Alpiarça são de grande importância pois os artefactos foram não só encontrados à superfície,  como também no local origina da deposição.

Os artefactos com maior destaque são os bifaces (24) e os machados (13) em quartzite. Contudo foram também encontrados um pequeno biface em sílex, e outros artefactos como:  raspadores, denticulados, entalhes todos sobre lasca, raspadores sobre seixo talhado núcleos e lascas.

Na região de Alpiarça podemos destacar em relação a este período as seguintes estações arqueológicas: Vale do Forno, Barreiro do Tojal, Vale da Caqueira, Quinta do Outeiro, Vale da Atela, Barreira da Gouxa e Vale dos Extremos.

Como provam as estações arqueológicas, a ocupação humana na região de Alpiarça data de há milhares de anos. Mas ainda não existem respostas para todas as perguntas, desta forma, seria muito útil e necessário fazer trabalhos de Arqueologia quer a nível da prospecção quer a nível da escavação.

A história local e a preservação do património podem ser o ponto de partida para a realização na escola de trabalhos que visem sobretudo o estudo de questões relacionadas com a terra onde vivemos. Nesse sentido é de grande importância que se façam estudos na escola que estimulem o pelo património local, quer a nível arqueológico artístico, etnográfico histórico, museológico ou sobre outras áreas do património cultural.

* Licenciado em História, Variante de Arqueologia

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:: Locais Arqueológicos ::

Por: Eurico Henriques; Neli Martins; colab. Nuno Prates *

O homem habita a região de Alpiarça há milhares de anos. Assim o comprovam as estações arqueológicas já identificadas.

ISão célebres as necrópoles de Alpiarça, tendo-se empreendido há poucos anos a escavações que contribuíram para um maior conhecimento das mesmas, embora a sua datação e o contexto cultural continue um problema em aberto e a merecer a continuidade de uma investigação cientificamente conduzida.

A posterior ocupação romana é comprovada pelos vestígios encontrados que, não tendo a grandiosidade de outros existentes no país, testemunham a sua presença e a importância desta área.

A riqueza dos solos e a necessidade do seu aproveitamento para a agricultura explicam, em parte, o desaparecimento de muitos vestígios materiais. o desconhecimento ou a falta de sensibilização para esta temática poderão ter igualmente contribuído.

Deste modo pensamos que se facilitará um tomada de consciência para a salvaguarda e para uma mudança de atitudes para com os legados do passado, se for desenvolvido um trabalho de divulgação do património descoberto, acompanhado de medidas no sentido da sua preservação

A escola pode ter um papel activo neste processo, ao sensibilizar e motivar os alunos para o estudo da história local e, desta forma, estimular o gosto pela protecção do património.

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:: ESTAÇÕES ARQUEOLÓGICAS ::

1 – Nos altos terraços do Tejo – de 60-70 m, de 45-55 m – 650.000a.c.

· Vale do Forno, Barreira do Tojal no Vale da Caqueira, Quinta do Outeiro, Vale da Atela, Barreira da Goucha:

2 – Nos Terraços Médios do Tejo – de 20-40 m – 250.000a.c

· Paul da Goucha, Vale da Atela, Vale dos Extremos, Vale do Forno, Vale da Caqueira:

:: Instrumentos de Tayacense- Acheulense Médio-Homo Habilis.

Nos Terraços Quaternários, de há 100.000 a.c., Instrumentos Mustirenses – Levalloisence – Languedocense- Homo Neanderthall.

3 – Necrópole do Tanchoal – Campo de urnas – Período do Bronze final, Período do Ferro e Romano.

4 – Necrópole do Meijão – Período do Ferro.

5 – Cabeço da Bruxinha – Periodo Romano

6 – Alto do Castelo – Pré Romano e Romano – Castro fortificado

7 – Cabeço da Bruxa – Períodos Neolítico, do Bronze, do Ferro e Romano.

Os materiais recolhidos nestas estações e outras do concelho encontram-se depositadas nos Museus da Universidade do Porto, do Instituto Geográfico e Cadastral e na Casa-Museu dos Patudos.

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* Eurico Henriques, Mestre em Ciências da Educação

* Neli Martins, Licenciada em História

* Nuno Prates, Licenciado em História, Variante de Arqueologia
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:: DO BRONZE FINAL À ÉPOCA ROMANA ::.

Por: Nuno Prates *

Após uma pequena descrição do Paleolítico na Região de Alpiarça, vamos agora conhecer melhor as outras estações arqueológicas. O Alto do Castelo, o Cabeço da Bruxinha, o Tanchoal, o Meijão e o Cabeço da Bruxa têm uma cronologia posterior ao Vale do Forno.

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O povoado do Alto do Castelo localiza-se numa elevação entre as necrópoles do Tanchoal e do Meijão, como não havia condições naturais de defesa foi construído uma muralha de terra batida antecedida por um fosso, que servia de defesa; o “muro” tem uma extensão que atinge os 1.150 metros e o “oppidum” (povoado fortificado) tem cerca de 30 hectares.
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Esta estação arqueológica é conhecida, desde o início do século, por Mendes Corrêa e na década de oitenta é estudada pelo Instituto Arqueológico Alemão.

O Alto do Castelo possui uma cronologia anterior à época romana, por ter sido ocupado durante a Idade do Bronze Final ou Ferro. No entanto, não foi abandonado depois desta época pois sofreu também ocupação romana, visto que se encontram materiais à superfície do período romano. Este poderá ter sido um castro romanizado.
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Pensa-se que a fortificação é datada da época romana e foi construída em cerca de 140 a.C., quando as legiões de Décimo Júnior Bruto iam a caminho do Alentejo.

Os materiais desta estação são entre outros: mós, fragmentos de ânfora, uma ânfora completa feita à roda, moedas romanas e fragmentos de cerâmica comum.

O Cabeço da Bruxinha é um pequeno outeiro que, pela disposição em que está, parece ter sido separado do Alto do Castelo, por uma larga depressão. A separação poderá ter ocorrido por questões de defesa, ou até mesmo quando o Alto do Castelo era habitado.

A ocupação do Cabeço da Bruxinha data, provavelmente, da Idade do Bronze Final ou Ferro, mas sofreu também ocupação romana.

Os materiais que foram encontrados nesta estação arqueológica são da época romana, a saber: cerâmica comum e fragmentos de cerâmica de construção.

Na região de Alpiarça também se conhecem necrópoles da Idade do Bronze Final: as estações do Tanchoal e do Meijão. O ritual funerário, utilizado nestas necrópoles, era a incineração.  As cinzas daí resultantes eram colocadas em pequenas urnas cerâmicas e enterradas. É neste ritual que reside a diferença, sem antecedentes locais, este ritual poderá ser explicado como consequência de contributos de outros povos que vieram por via continental.

Ambos os campos de urnas (necrópoles) apresentam materiais cerâmicos, na sua maioria de engobe cinzento escuro, com diversas formas. Estas urnas, encontradas nestas estações, deram origem à designação de “Cerâmica de Alpiarça” e também de “Cultura de Alpiarça”,  bastante conhecida no campo da Arqueologia.

Estas duas estações arqueológicas situam-se próximo do Alto do Castelo. Do espólio encontrado nestas necrópoles, há a destacar no Tanchoal vários fragmentos de vasos de formas raras, várias urnas de tamanho médio e grande, um jarro feito à roda e um machado de gume curvo.

No Meijão foram ainda encontrados vários tipos de urnas de fabrico manual, taças carenadas de fabrico manual e vários fragmentos de braceletes de bronze.

O Cabeço da Bruxa localiza-se na Quinta da Goucha, a cerca de 600 metros a Oeste da estrada nacional 118 de Alpiarça a Almeirim. Consiste numa elevação de areia de cerca de 6 metros sobre a planície de aluvião.

Esta estação arqueológica já é conhecida desde a década de 30 e foi alvo de escavações arqueológicas feitas em 1979 pelo Instituto Arqueológico Alemão.
O Cabeço da Bruxa durante o Calcolítico era um povoado. Existem materiais arqueológicos chamados ídolos-cornos e a cerâmica campaniforme, que provam esta ocupação.  Durante o Bronze Médio, o Cabeço foi ocupado como necrópole onde foram encontradas, pelo Instituto Arqueológico Alemão, três urnas “in situ”, com espólio associado. Durante a época romana, este local é ocupado como povoado.

Os materiais arqueológicos encontrados no Cabeço da Bruxa têm várias cronologias. Foram encontrados alguns materiais da Pré-História, nomeadamente lâminas de sílex e machados líticos, ídolos de cornos, fragmentos de vasos campaniformes, urnas e braceletes de bronze. Da época romana vários fragmentos de cerâmica comum e fragmentos de uma lucerna do século I d. C., fragmentos de terra sigillata hispânica e terra sigilatta clara, foi também encontrada uma moeda de cobre hispano – cartaginesa, provavelmente datada do último quartel do século III a . C..

A estação localizada na Quinta da Goucha é uma das estações arqueológicas de Alpiarça, ocupada desde a Pré – História até à época romana.

Segundo alguns autores, no termo de Alpiarça passava uma das vias romanas em direcção a Mérida, como prova desse facto são os vários marcos miliários encontrados, dedicados ao Imperador Trajano.

* Licenciado em História, Variante de Arqueologia

:: Toponímia ::.

Alpiarça, em tempos, também se escreveu Alpiaça, é um topónimo a que geralmente se atribui origem árabe, está ligado ao rio que passa junto à povoação, o rio Alpiarça, Ribeira de Ulme ou Vala de Alpiarça.

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:: ALPIARÇA – A ORIGEM DO TOPÓNIMO

Por: Nuno Prates *

Para alguns autores, nomeadamente José Pedro Machado, o topónimo Alpiarça está ligado à palavra portuguesa peaça, procedido do artigo arábico Al. Peaça provém de Peia, ou seja, embaraço, impedimento. Este nome terá surgido pela quantidade de algas que se juntavam a jusante do rio Alpiarça.

Para Baptista de Lima, o nome da vila também tem origem em peaça, para este autor sendo este termo  “correia que prende o boi à canga”, antecedido do vocábulo Al.

Na opinião de Batalha Gouveia, o topónimo Alpiarça está ligado a um culto pagão antiquíssimo, este tinha por base a adoração à lua. Para Batalha Gouveia no topónimo Alpiarça estão aglutinados os termos orientais “abala” e “arta” que significam “espírito santo” e “divina – mater”.

Arta foi adoptada como teónimo, antropomorfizado, numa divindade que concentrava em si os poderes cósmicos – vitais da fecundidade feminina.

A palavra oriental e ibérica arta significa “ordem”, no grego ordem é designado por takis e para designar boa, utilizava-se o prefixo “eu”, forma-se então o composto eutakis (boa ordem). Esta expressão entrou no latim com a designação de estaquios. O santo padroeiro de Alpiarça é o Santo Eustáquio.

* Licenciado em História, Variante de Arqueologia

100º Aniversário da Vila de Alpiarça ::.

Em 1758, através das memórias Paroquiais sabemos que já existia a Paróquia de Alpiarça e que possuía 311 fogos, em 1842, este número subia para 490, enquanto que Almeirim Sede de Concelho possuía 383 fogos.

…o que equivale a novecentos e trinta pessoas maiores, neste número incluíam-se os 29 moradores da Gouxaria, os 10 da Gouxa e os 6 da Lagoalva.  Oitenta anos depois, em 1836, Alpiarça tinha 454 fogos, número que subia para 490, seis anos mais tarde, o que equivaleria a cerca de 2.000 pessoas, enquanto que Almeirim, sede do concelho, tinha registados 383 fogos.
Em 1856 a diferença populacional entre as duas povoações era ainda mais significativa, pois enquanto a sede do concelho tinha 2100 pessoas, a freguesia de Alpiarça tinha já 2700 habitantes, entre os quais se contavam 2 bacharéis, 5 carpinteiros, 1 cirurgião, 51 proprietários, 2 boticas, 10 mercearias, 6 padarias e 6 tabernas.
A importância da freguesia media-se também pelo facto de ali residirem o médico facultativo do concelho, o cirurgião, os bacharéis e o conselheiro. Politicamente também essa influência se fazia sentir, pois são dali naturais muitos dos vereadores e Presidentes de Câmara que dirigiam os destinos do concelho de Almeirim. É particularmente significativo o facto de vários habitantes de Alpiarça terem ocupado durante 27 anos a Presidência da Câmara de Almeirim, no período que vai de 1836, altura em que se integrou neste concelho, até 1914, ano em que a própria Vila foi elevada a concelho.
Alpiarça vinha-se desenvolvendo cada vez mais, sobretudo em relação a Almeirim, de quem dependia administrativamente. É este crescimento acentuado que poderá explicar o desejo de autonomia que vinha ganhando corpo ano após ano.
Sendo, como era, a povoação com mais habitantes do concelho de Almeirim, com um bom grau de desenvolvimento, com alguns dos maiores lavradores do Ribatejo, como era o caso de José Relvas, e com uma influência crescente em termos políticos, não foi surpresa para ninguém que a aldeia fosse promovida a Vila em 1906, mercê de um pedido feito pela Junta de Paróquia da Freguesia de Alpiarça e de uma informação circunstanciada do Governador Civil, do distrito de
Santarém, que se encontram reflectidas no decreto-lei publicado no Diário do Governo de 17 de Fevereiro de 1906.

FONTE: CM Alpiarça

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