Visita à Adega d’Arrocha: tradição e identidade em cada gota
Neste artigo, propomos partilhar a reportagem da visita a 16 de fevereiro de 2026, onde quisemos conhecer a origem e propósito da Adega d’Arrocha, comprovar as características do terroir atlântico de Ribamar, na Lourinhã.
Neste projecto, conhecemos a real importância da enologia de precisão e castas de excelência, e saudamos o facto de haver um legado com visão e tudo indica haver continuidade.
Nesta visita tivemos oportunidade de conhecer os Vinhos, e foi sobre eles onde investimos mais tempo, pois aqui neste portal não tinhamos qualquer histórico, e os destaques da prova que foi possível realizar, destacam-se Vinhos monocasta, com castas que representam muito o terroir onde são extraídas uvas, de parcelas próprias, nomeadamente as castas Vital, Viosinho, Fernão Pires, Castelão e Touriga Nacional.
O impacto dos vinhos na região de Lisboa, a sustentabilidade, colheita manual e identidade são aspectos que julgamos destacarem-se neste produtor, e conclui-se que estamos perante um projecto que é emoção engarrafada.
Um encontro com a terra e o futuro
No passado dia 16 de fevereiro de 2026, o Clube de Vinhos Portugueses teve o privilégio de visitar a Adega d’Arrocha, em Ribamar (Lourinhã), uma das zonas costeiras mais intrigantes da região de Lisboa. A visita não foi apenas uma oportunidade de conhecer vinhos, foi uma aula viva sobre como um terroir e uma equipa apaixonada podem criar algo verdadeiramente memorável.
A Região Vitivinícola de Lisboa estende‑se ao longo da costa oeste portuguesa, desde a capital até perto de Leiria, beneficiando de uma forte influência atlântica que lhe confere um clima fresco, ventos constantes e elevada humidade. Esta combinação cria condições ideais para produzir vinhos com acidez natural, frescura e grande versatilidade gastronómica. É também uma das regiões mais produtivas do país, marcada por enorme diversidade de solos e microclimas, o que se reflete na variedade de estilos e perfis enológicos.
A região é composta por nove denominações de origem, cada uma com identidade própria, Lourinhã distingue‑se por ser a única DOC portuguesa dedicada exclusivamente à aguardente vínica, aliás com destaque particular, atendendo que é das três regiões demarcada do mundo para a produção de aguardente vínica.
A diversidade climática e geológica permite à região produzir uma ampla gama de vinhos: brancos frescos e aromáticos, tintos que vão dos mais leves aos mais encorpados, rosés frutados, espumantes expressivos e ainda fortificados de grande tradição. Esta multiplicidade, aliada a uma excelente relação qualidade‑preço e a um equilíbrio entre tradição e modernidade, faz da Região de Lisboa uma das mais dinâmicas e interessantes do panorama vitivinícola português, com produtores inovadores e crescente reconhecimento internacional.
Embora a Lourinhã seja sobretudo conhecida pela sua aguardente DOC, a sub‑região também possui uma tradição vitivinícola ligada à produção de vinhos tranquilos, ainda que em menor escala. O clima marcadamente atlântico, fresco, húmido e ventoso, condiciona fortemente o ciclo da videira, originando maturações lentas e teores alcoólicos moderados. Estas condições favorecem vinhos de perfil leve, frescos e com acidez vincada, sobretudo nos brancos. As castas tradicionais da região, como Fernão Pires, Vital, Arinto ou Malvasia Rei, adaptam‑se bem ao ambiente costeiro, permitindo obter vinhos aromáticos, de expressão cítrica e mineral, muito adequados ao consumo jovem e à gastronomia local.
Nos tintos, a influência atlântica traduz‑se em vinhos mais delicados, de corpo médio e taninos suaves, frequentemente elaborados a partir de castas como Castelão, Aragonez ou Tinta Miúda. Embora menos conhecidos no mercado nacional, estes vinhos refletem um estilo autêntico e regional, marcado pela frescura e pela elegância natural que o clima proporciona.
A produção é relativamente limitada, já que grande parte das uvas é tradicionalmente orientada para a destilação, mas os vinhos da Lourinhã têm vindo a ganhar atenção pela sua identidade própria e pelo potencial de valorização de castas e práticas locais.
Um legado que fermenta
A história da adega nasce de um profundo respeito pela terra e por quem nela investiu antes. A família fundadora transformou um legado emocional num projeto vitivinícola com identidade forte e ousadia moderna. Hoje, os vinhos d’Arrocha são expressão líquida dessa herança, e dessa inquietação criativa.
Tudo começa em José Paulo Rato, naturalmente um empreendedor com vasta experiência de liderança e foi a força motriz que impulsionou o nascimento deste projeto, alguém com um percurso sólido no setor agrícola e na viticultura, áreas onde iniciou a sua atividade empresarial, traz consigo um conhecimento profundo da terra e das vinhas.
É com José Paulo Rato que tudo começa, mas hoje, dedica‑se inteiramente ao cuidado das nossas vinhas, conduzindo‑as com a mesma determinação e compromisso que marcaram toda a sua trajetória profissional.
Depois, uma equipa de gerência liderada por Helena Alexandre, matriarca da família, com experiência empresarial em diversos setores e por isso conhecida pela mulher dos sete ofícios. Conselheira e pragmática, com uma preocupação particular pela qualidade de toda a cadeia de valor dos produtos, acompanhada por Ricardo Rato e Vera Alexandre Rato.
A uma viagem com mais de três décadas, do casal José Paulo Rato e Helena Alexandre, junta-se Ricardo Oliveira Guimarães, que actualmente lidera enologia, cresceu com fortes ligações à agricultura, acompanhando desde cedo o seu avô José Justino nas visitas ao casal para cuidar das vinhas. Essa vivência marcou‑o profundamente e despertou a sua relação com a terra. Formado inicialmente em Psicologia Clínica, trabalhou com crianças e jovens em risco, mas a paixão pelas vinhas e pelos vinhos falou mais alto. Acabou por regressar à universidade para se especializar em engenharia de viticultura e enologia, área onde hoje exerce como enólogo, unindo conhecimento técnico à sensibilidade que sempre o aproximou do mundo rural.
Entre 2018 e 2021 esta equipa materializa um sonho com legado, materializado na construção da Adega D’Arrocha com capacidade para 300 mil litros de vinho e uma oferta diferenciada de enoturismo, e começa a construir a formatação da oferta com Vinhos que tem uma identidade própria assente no que melhor se pode fazer com castas apropriadas ao terroir da região.

Visita à Adega d’Arrocha
Ribamar da Lourinhã: terroir atlântico e luminoso
As vinhas da Adega d’Arrocha estendem-se por cerca de 40 hectares, em solos argilo-arenosos e clima temperado atlântico, com brisas marítimas constantes, grande humidade e maturações lentas, o que origina vinhos com frescura, acidez firme e mineralidade salina — autênticos postais do Oeste.
Castas que brilham com o vento
A diversidade varietal é notável: Fernão Pires, Vital, Arinto, Viosinho e Chardonnay nos brancos; Castelão, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah nos tintos. O projeto valoriza castas locais e internacionais, sempre com vinificação cuidadosa e respeito absoluto pela tipicidade da uva e da terra.
Da vinha à garrafa: vinhos com precisão
A equipa liderada pelo enólogo Ricardo Oliveira Guimarães aposta num estilo contemporâneo, com fermentações controladas, uso pontual de barrica e vinhos que revelam equilíbrio entre elegância, estrutura e prazer imediato. A colheita é manual, e o detalhe está em tudo: da poda à prova final.
Destaques em prova: quando o terroir fala
Durante a visita, tivemos oportunidade de provar vinhos que traduzem o território com precisão e sentimento:
Vital 2024 – Um branco puro, direto, com frescura salina e perfil aromático cítrico.
Vital Grande Escolha – Mais profundo, com estrutura, notas minerais e intensidade que surpreende.
Viosinho Reserva 2023 – Envolvente, elegante, com fruta branca, baunilha discreta e boca longa.
Fernão Pires Reserva 2024 – Expressivo, floral, com acidez firme e final equilibrado.
Grande Reserva Tinto 2021 (Castelão & Touriga Nacional) – Notas de fruta preta, especiarias e taninos maduros num tinto de sofisticação atlântica.
Uma nova geração com raízes fundas
A força do projeto está na sua capacidade de conjugar modernidade e herança, inovação e respeito.
Quem hoje lidera a Adega d’Arrocha sabe que produzir vinho é mais do que cumprir técnicas, é cuidar de um legado com autenticidade e compromisso.
Onde o mar toca a vinha
A visita à Adega d’Arrocha revelou-nos um projeto coerente, apaixonado e tecnicamente irrepreensível.
Um lugar onde a vinha sente o mar, a adega respeita o silêncio da uva, e o vinho nasce como testemunho de tudo isso.
Recomendamos vivamente a visita, e, claro, a prova.

“Onde o mar encontra o vinho: visita à Adega d’Arrocha.”


