Amor, paixão ou talvez vinho.
Entra na nossa vida como certas paixões intempestivas. Inesperado, intenso, quase imprudente. Um gole é suficiente para alterar o humor do momento a recordar um beijo que tem a força de mudar o destino.
São vinhos que ardem com convicção e que falam mais alto. Não serão eternos no corpo, mas eternizam-se na memória.
Falo de vinhos que se distinguem como amores que nunca se esquecem.
Surpreendentes na arte de entregar experiência e sabor, beijos e paladares. Alguns, os mais novos ainda procuram provas públicas. Outros, os veteranos gritam aromas exuberantes, exibem-se em gestos performativos e cheiram a casa. Esse lugar-comum que nos oferece segurança e amparo. Sustentam-se numa coerência silenciosa, numa elegância que só a experiência consegue legitimar.
Quando falo de vinho interrogo-me sempre se não estarei a pensar no amor.
Suspeito que tanto o amor como o vinho partilhem a mesma natureza caprichosa. Dependem do momento, da disposição interior, da luz que incide sobre o instante. Um vinho bebido num dia trivial pode ser correto, o mesmo vinho, partilhado numa noite em que a alma está disponível, transforma-se em revelação.
As verdades servidas a copo.

Vai com Vinho 3 de 3.ª Temporada – Amor, paixão ou talvez Vinho
Os néctares da garrafa são luzes a viajar na galáxia dos nossos sonhos, desafios que transformam a audácia no destino final. Falamos de amor ou continuamos no vinho?
Recordo vinhos que me pareceram extraordinários e que, revisitados anos depois, se mostraram apenas competentes. Talvez tenham sido como certos amores de juventude: inflamados, líricos, cheios de promessas, mas incapazes de atravessar o inverno. Foram necessários, sem dúvida. Ensinaram-nos a intensidade. Mas não eram casa.
O amor de uma vida, esse assemelha-se ao grande vinho que escolhemos ou que nos escolheu. Não seduz apenas pela potência, convence pela constância. Evolui. Ganha profundidade. Aprende a respirar. Não perde carácter, refina-o.
O desafio é manter a intensidade eterna. Sempre apaixonado, sempre a amar. Sempre a descobrir e a provar como se fosse a primeira vez. O amor implica chama, luz e palco. O vinho não é diferente.
E quando, numa noite qualquer, um vinho coincide com a pessoa certa e com o momento exato, algo raro sucede: não sabemos se estamos a beber o vinho ou a viver o instante.
Tristão de Andrade
3ª Edição – 3º Episódio


