Não guardes para amanhã o vinho que podes degustar hoje.

Ajuda-me a entender o motivo pelo qual reservas o néctar divino que está pronto a ser saboreado.

Explica-me o porquê? Será por poupança, falta de motivo ou companhia para o desrolhares? O que te convence realmente a adiar os momentos e a mergulhar nas águas do “não vale a pena”?

Neste regresso de Vai com Vinho embarca na viagem pelas humildes estradas da reflexão e escuta os meus argumentos. Podes e deves refutar. Isto é uma conversa, não se trata de um monólogo. Enche um copo com dois dedos de vinho e relaxa.

Vamos divagar.

Para entender o futuro nada melhor que compreender o passado. Já os antigos reclamavam que “quem deixa para depois, deixa para nunca”. A literatura está pejada de avisos à navegação. Oscar Wilde ou Johann Wolfgang Goethe, nas suas obras-primas, desfiam estas preocupações. O primeiro, em O Retrato de Dorian Gray, conclui que o custo do adiamento leva necessariamente à ruína. Já o segundo revela nas páginas de Fausto que quem vive à espera do auge perde a própria vida. Muitos outros pensadores, filósofos e escritores deixaram em legado esta mesma mensagem. Tolstói, Tchékhov, F. Scott Fitzgerald, a título de exemplo, avisaram que “o depois não tem prova de existência”.

Vai com Vinho Nr. 1 Temporada 3, por Tristão de Andrade

Vai com Vinho Nr. 1 Temporada 3, por Tristão de Andrade

É também importante lembrar que continuamos a falar de vinho, e não podemos confundir o “deixar para amanhã” com o “guardar até amanhã”. Pois, “deixar” é um hino ao possível desleixo, enquanto “guardar” pode ser uma sábia decisão. Guardar para evoluir ou para uma data específica é inteligente, revela espírito de resiliência e coragem na luta contra as adversidades temporais ou impulsos repentinos. Afinal um vinho precisa de paciência para tocar o céu, quem diz paciência, diz tempo, mas isso já é outro assunto. Aqui refletimos sobre o estado de paralisação, apatia diria, que nos afeta quando temos na prateleira o vinho pronto a ser desrolhado.

O Imperativo da Fruição: A Falácia da Garrafa Adiada

Inverter a premissa do adiamento revela-nos uma verdade desconcertante: escasseiam os argumentos intelectuais que justifiquem a abstinência perante uma grande colheita num dia pretensamente banal. O otimismo antropológico sugere-nos que o “quotidiano” é uma abstração; na realidade, cada ciclo solar encerra em si uma singularidade irrepetível. Se concordamos com esta tese, por que razão mantemos o lacre intacto? Serão o valor pecuniário, a exclusividade da colheita ou o valor sentimental? Obstáculos psicológicos?

Neste impasse, a ontologia do vinho cruza-se com a clássica dicotomia do otimismo e do pessimismo. Onde o conservador vê desperdício no saca-rolhas, o epicurista lamenta o tempo já perdido. Até a pragmática visão da engenharia poderia aqui intervir, questionando a eficiência da relação entre o conteúdo e o recipiente.

Estaremos a utilizar cálices desmesurados para momentos de pouca substância, ou serão os nossos vinhos e as nossas prateleiras o reflexo de uma meritocracia mal gerida?

Estas reflexões, embora pertinentes, são apenas o preâmbulo para o que verdadeiramente importa. No final da reflexão o que procuramos é o retorno ao prazer sensorial, à fluidez do néctar e à cadência da conversa que o vinho, e só o vinho, sabe catalisar. No que me diz respeito, a decisão de libertar uma grande reserva de repouso na cave fundamenta-se num postulado científico de uma simplicidade absoluta e irrefutável: a soberania do desejo.

Abro-a, simplesmente, porque sim.

Tristão de Andrade

3ª Edição – 1º Episódio