Entre o Tanino e a Ternura.

Por mais peregrinações vínicas que a minha curiosidade faça entre provas, feiras, jantares e aquela espécie de liturgia doméstica a que chamamos abrir uma garrafa numa terça-feira sem motivo, descubro agora uma verdade que faria suspirar qualquer personagem de romance oitocentista:

o melhor vinho é sempre aquele que coincide com quem se ama.

O sabor, esse senhor volúvel, nunca se repete. Evolui conforme a conversa, a luz da sala, o grau de confiança entre os presentes e, sobretudo, até segundo a disposição moral de quem paga a conta.

Tenho consciência, dizendo sem falsa modéstia, mas com a humildade que a mortalidade impõe, de que sou um homem afortunado. A morte, essa pontualíssima senhora de preto, já reservou mesa para todos nós, contudo, enquanto não chega a sobremesa definitiva, convém viver com esmero. Como diria Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena” com um copo servido até meio, a medida perfeita entre a esperança e a prudência.

Ora sucede que, em todas as mesas vínicas onde a Providência me sentou, invariavelmente após o saca-rolhas cumprir a sua função quase sacerdotal, há sempre um instante em que alguém, com a gravidade de quem cita Kant depois de ter lido apenas a contracapa, pergunta:

Entre o tanino e a ternura - Vai com vinho 2 de 3ª temporada

Entre o tanino e a ternura – Vai com vinho 2 de 3ª temporada

então, afinal, qual é a tua região preferida?

A pergunta surge cercada de copos já moralmente corados, queijos imperfeitos na sua sinceridade e pão sacrificado em migalhas, testemunhas mudas de um pequeno banquete digno de Camilo Castelo Branco, caso este tivesse trocado a tragédia pelo convívio.

Esperam de mim um mapa. Querem fronteiras, altitudes, exposições solares e, se possível, uma opinião que possa ser repetida no jantar seguinte como se fosse própria. O Douro? O Alentejo? A Bairrada? Talvez uma casta pronunciada em francês para legitimar a sede.

Outrora respondi com fervor técnico. Falei de acidez, de elegância aromática, de persistência sempre como se o vinho fosse um relatório e não uma companhia. Hoje confesso: era ignorância bem articulada.

Porque o vinho, tal como o amor, e como diria Eça se tivesse frequentado provas comentadas, tem a indecência de não respeitar classificações.

Posso esquecer a garrafa, mas nunca apago da memória o momento. Não retenho o tanino porque me interessa mais a gargalhada. E, já quanto ao estágio em barrica, de nada importa, o fundamental é a cumplicidade e a confidência.

Provavelmente a melhor garrafa que desarrolhei continha apenas um vinho razoável, extraordinário era quem o partilhava comigo.

Assim deixei de preferir geografias. Descobri que o vinho é profundamente humano: melhora sempre na companhia certa e deteriora-se irremediavelmente quando alguém decide descrevê-lo durante demasiado tempo.

 o vinho é pretexto, nunca o único assunto.

Os solos, o terroir, tudo é importante, mas os afetos superam qualquer característica analisada pela física ou pela química. E por isso, quando hoje me perguntam qual a minha região preferida, respondo com rigor científico, mas também sentimental:

– Depende de quem sem senta ao meu lado.

Tristão de Andrade

3ª Edição – 2º Episódio